12 de julho de 2010

Num dia como hoje, por exemplo:



"A chuva cai, diz coisas sonolentas, coisas tristes, num ar vagamente sonâmbulo de quem já não sofre, num ar morno de suprema lassidão, de suprema renúncia, como quem se resigna a todas as misérias, como quem se resigna a todas as cobardias. Parece que a chuva diz rezas, rezas frias, murmuradas por lábios frios num frio claustro de convento. Parece que a chuva fria fala num delírio incessante, febrilmente vago, num salmear inconsciente, como quem vai morrer. Eu não sei se V. tem sentido a nostalgia destes dias assim, mas eles evocam em mim a tragédia das almas que se calam, das que já não se queixam, das almas galvanizadas na angustiosa tormenta de impossíveis sonhados um dia e nunca realizados. Quando nesses dias eu olho as planícies vastas, tenho medo de ver, insensivelmente, transformar-se meu olhar no olhar espectralmente parado das estátuas. Então agito-me, sacudo-me, falo alto, canto como as crianças que têm medo das sombras imóveis das árvores numa estrada deserta. Tudo é grande, tudo parece fugir, fugir sempre ao longe, como aqueles fantásticos castelos de brumas, onde ninguém chegava nunca – a chuva continua a dizer sempre a mesma coisa, a embalar o tempo que adormeceu agora..."
Florbela Espanca - (5/1/1920)


"Coloque a lealdade e a confiança acima de qualquer coisa; não te alies aos moralmente inferiores; não receies corrigir teus erros."
Confúcio

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